quinta-feira, 3 de março de 2011

FORMAÇÃO DE ATLETAS: A base de tudo no futebol

1582640_w3


Renovação! Esta é a palavra que melhor define o que é (na verdade o que deveria ser!) as categorias de base, não só no futebol (área da grande maioria dos que acompanham o site) mas em todos os esportes. Infelizmente, e falo isso com conhecimento de causa, a formação de atletas não recebe, principalmente no Brasil, a atenção merecida e necessária em investimento (infra-estrutura e recursos humanos).

A categoria de base é (ou deveria ser) a principal fonte de abastecimento e renovação de atletas da categoria profissional. O “local” onde o clube vai buscar atletas de baixo custoidentificados com o clube e sua filosofia, acostumados ao “peso da camisa” e capacitados e bem preparados integralmente para serem aproveitados na equipe profissional. Para que este processo tenha sucesso é necessário um Projeto de Formação que possua objetivos e orientação clara, onde haja direcionamento dos treinamento de acordo com as necessidades individuais de cada atleta. Este projeto fomenta os princípios e regras que moldarão o desenvolvimento do atleta com o objetivo de “produzir” um perfil de atleta especificamente para o clube.

Recentemente esta fonte de abastecimento tem sido deixada de lado em detrimento do custo de manutenção de um departamento de formação e contratação de jogadores “medalhões”, fazendo com que em diversos clubes médios e pequenos (com tradição de clube formador de atleta) o departamento de formação de atletas fossem enfraquecidos ou até mesmo extintos. E, desta forma, o que deveria ser uma fonte de recursos esportivos (abastecimento à categoria profissional) e de recursos financeiros (venda de atletas para outros clubes por um valor muito superior ao custo de formação) acaba sendo subvalorizada (sem investimento financeiro e de recursos humanos) ou até mesmo finalizada.



FORMAÇÃO É UM PROCESSO COMPLEXO
Em razão da forma que o processo de formação foi realizado ao longo dos tempos, a categoria de base transmite a imagem ser algo fácil e simplista de ser coordenado e executado, onde é simplesmente procurar o melhor atleta, dar treinos técnicos, físicos e táticos (copiando o modelo da categoria profissional) para ele desenvolver aquele potencial encontrado na captação, ganhar títulos nas categorias de base, e assim com o tempo ele será aproveitado no time profissional e portanto, ajudando o clube na busca por vitórias e títulos, para depois ser vendido e trazer dividendos para o clube. Simples, não é mesmo? E por incrível que pareça, apesar de não admitirem, muitos clubes (“formadores” ou não) acabam por conduzir a formação de base desta forma simplista e irreal e, pela boa captação, acaba por “revelar” alguns atletas e o clube.

Para piorar a situação, em muitos casos neste processo “simplista” está incluído a contratação/manutenção de profissionais que não possuem a capacitação necessária para o trabalho de formação (as vezes para nenhum tipo de trabalho no futebol), a falta de infra-estrutura mínima para o desenvolvimento do atleta (materiais de campo, alimentação, alojamentos, transporte, acompanhamento escolar, etc.), fora a busca intensa por resultados e vitórias nas categorias de base (são importantes e necessárias, mas são resultados naturais de uma boa formação).

Como dito anteriormente, atualmente  a “formação de atletas” é sustentada principalmente pela captação de atletas, dependendo quase que exclusivamente do talento dos atletas. Esta afirmação é amparada por diversos fatos, dentre eles a corriqueira contratação de atletas ainda nas categorias de base (em detrimento da formação dentro do próprio clube) e constante reclamação dos treinadores profissionais que a grande maioria dos atletas sobem da base para o profissional não estão completamente formados e não estão com a parte técnica no nível ideal para atender às necessidades da categoria.

Quero deixar claro que não generalizo este quadro! Existem trabalhos alta qualidade na formação de atletas e com ótimos resultados obtidos em diversos clubes brasileiros. Além destes clubes que investiram anteriormente na “forma correta de formação”, muitos outros clubes estão se reestruturando para melhorar a formação de atleta, principalmente pela implantação de uma filosofia/metodologia de trabalho por profissionais atualizados e capacitados para tal (e portanto iniciando uma quebra de paradigma!). Neste último caso, não haveria melhor exemplo a ser citado do que a contratação do Prof. Dr. Rodrigo Azevedo Leitão para comandar o Sub-17 do Corinthians.

Posso citar dentre diversos clube que unem organização, conhecimento científico, estrutura e ótimos profissionais como Atlético-MG, Cruzeiro, São Paulo, Atlético-PR, Coritiba, Desportivo Brasil, Grêmio, Olé Brasil, Internacional Figueirense, Paraná Clube dentre outros. Apesar de ser uma lista extensa, ainda é muito pouco! Pela quantidade de equipes, e muitas de grande tradição regional e estadual, a formação de qualidade no Brasil é muito escassa se comparada ao número de equipes e o potencial que este país possui!


O PROCESSO “IDEAL”
Para uma formação ideal é necessário um trabalho específico para todas as capacidades, adequadas de acordo com o período sensível de cada capacidade. É necessário muito mais que experiência prática e empírica, é necessário conhecimento científico, embasamento teórico das diversas ciências do esporte (Crescimento e Desenvolvimento Humano, Pedagogia aplicada ao Esporte, Fisiologia do Exercício, Treinamento Desportivo, Psicologia do Esporte, etc.) e mais ainda, é necessário capacidade de aplicação destes conhecimentos.

Se existe o processo ideal (creio que ideal é algo utópico no futebol) ele com certeza está baseado em clubes que consigam alcançar um o que chamamos de desenvolvimento sustentável: ter na sua categoria profissional grande quantidade de atletas formados no clube e pela venda de atletas (da base e do profissional) manter ao menos o ciclo de formação dentro do clube.

Talvez hoje em dia o clube que tenha conseguido chegar à este desenvolvimento sustentável, se manter em altíssimo nível técnico e continuar conquistando títulos é o Barcelona. Que com uma ótima captação, um trabalho de desenvolvimento formidável (integral e totalmente integrada entre todas as categorias) e uma transição fantástica (vemos a importância do “Time B”) mantém nos últimos 5 anos uma equipe profissional (e seleção espanhola) composta por diversos atletas formados em LA MASIA, como é chamada as categorias de base do Barça.

Aqui no Brasil, me agrada muito o trabalho de formação realizado no Atlético-MG e no Atlético-PR (assim como outros clubes que citei anteriormente) onde, pelo trabalho de formação muito bem executado pelos profissionais que lá trabalham, conseguem manter o time profissional sempre com inúmeros atletas formados no próprio clube, muitos com a condição de titular, mesmo em épocas em que a diretoria busca a contração do “medalhões”. Além disso, os “Atléticos” sempre negociam atletas formados tanto em quantidade como em qualidade (leia-se dinheiro), alcançando o chamado desenvolvimento sustentável.
 293
 
A formação de atletas no futebol é composto, de maneira geral, por quatro fases que acontecem (ou deveriam) em seqüência:
1-) CAPTAÇÃO DO ATLETAS: Detecção e Seleção de Talentos.
2-) FORMAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO ATLETAS: Processo de desenvolvimento do talento esportivo de forma integral.
4-) EXPOSIÇÃO DO ATLETA: Participação de jogos em grandes torneios para adquirir experiência e visibilidade. Pode ser realizado por meio de empréstimo para outras equipes.
3-) APROVEITAMENTO DO ATLETA: Profissionalização e utilização do atleta formado na categoria profissional.
E uma quarta fase, bem estabelecida no Brasil:
4-) NEGOCIAÇÃO DO ATLETA: Venda do atleta para outras equipes

Para termos a “formação ideal” é necessário que o clube consiga cumprir de forma satisfatória principalmente as três primeiras fases citadas. Captando o atleta com potencial a ser desenvolvido, desenvolvendo este potencial como um todo (como ser humano cívico e moral além das capacidades esportivas) para ser capaz de jogar o jogo de futebol de maneira ótima, destacando-se e sendo utilizado na categoria profissional, podendo ser vendido para se revelar novos atletas.

Este seria o ideal, mas ainda estamos longe de termos a perspectivas que todos os clubes brasileiros tenham formação de atletas e que seja de qualidade. E assim como em praticamente todas as áreas do futebol, nas categorias de base existem milhares de paradigmas a serem quebrados! Infelizmente no futebol, principalmente no Brasil, é muito difícil inserir e aplicar conceitos novos e atualizados. Ainda é difícil de implantar a idéia que as ciências do esporte estão sendo desenvolvidas para a melhora do esporte e devem ser aplicadas. Existe uma barreira invisível que é construída baseada na repetição de conceitos retrógrados e em pessoas que não se reciclam e/ou atualizam. Enquanto hoje em dia já falamos em treinamento individualizado baseado na genética do atleta (Pesquisa do Prof. Dr. Eduardo Pimenta), ainda vemos categorias de base sem um planejamento em longo prazo, sem uma metodologia única e integrada de trabalho no clube ou até mesmo um controle/acompanhamento individual mínimo e tão necessário neste processo. Vemos, de maneira geral, uma simples cópia do que é dado no profissional, sem qualquer adequação dos conteúdos específicos de cada fase maturacional.

Portanto, há a necessidade não só de reativar as categorias de base de inúmeros clubes no Brasil, mas fazer isso com qualidade, utilizando o que as pesquisas e estudos científicos nos fornecem juntamente com a experiência empírica, mas nunca uma separada da outra, e existem inúmeros profissionais aptos para coordenar este tipo de projeto. Mas uma única ressalva: Não há milagres! A formação propriamente dita necessita de investimento e leva anos, apesar de apresentar retorno em curto e médio prazo, é no longo prazo que se tem o retorno e se vê a importância (esportiva e financeira) de um bom trabalho de formação de atletas. Todos os clubes que consideramos cases de sucesso no futebol levaram muitos anos para obterem o melhor resultado, e acreditaram no processo, mesmo que havendo adequações ao longo do tempo de acordo com a chegada de novos conhecimentos e perspectivas.
A formação de atletas é um processo muito específico e rico de detalhes portanto vamos nos aprofundar e discutir alguns pontos importantes posteriormente e quero usar este e os próximos artigos para que possamos abordar e discutir este quadro atual (de clubes estruturados em infra-estrutura e recursos humanos e de clubes que têm a formação deficitária ou inexistente!), além de expor cases que considero como exemplo. A formação é vital, e merece muito a nossa atenção, discussão e trabalho!

“O futebol não é ciência, mas a ciência pode ajudar a evoluir o nível do futebol”
(Bangsbo, 1993)


Obrigado e Forte Abraço aos colegas!

Técnico de Futebol
Bacharel em Esporte (UEL-PR)
Pós-Graduando em Futebol (UFV-MG)


Artigos relacionados:

8 comentários:

  1. Muito interessante o post para refletirmos sobre como anda as categorias de base no futebol brasileiro, mas temos que lembrar que na maioria dos clubes que tem uma boa formação - mas não a ideal - como você citou acima, se tem uma visão de formação de atletas para o mercado europeu, esquecendo de se formar atletas para sua própria equipe ou perdendo futuros atletas por captarem pensando no mercado e não em si próprio. Vendo isso penso que todos os clubes brasileiros deveriam fazer essa renovação que até foi um ponto bem falado no texto, e as equipes que já tenham uma boa base como as que citou acima se reformulem pensando em formar jogadores para suas equipes primeiramente e só depois no mercado externo como acontece atualmente, assim atingiremos os objetivos da formação na categoria de base como bem frisado no artigo. Grande abraço.
    Eduardo Gomes de Castro.

    ResponderExcluir
  2. Glauber, meus parabéns pelo texto, como sempre escrevendo bem e postando suas ideias para que possamos discutir e aprender mais.
    Das 4 fases que você destacou, a primeira fase é uma das mais criticas, no meu modo de pensar. Pois geralmente quem a faz são os famosos olheiros, que como você disse e conhecemos pelo prática, normalmente não são pessoas preparadas.
    Thomas Reylli e João Paulo Borin também questionam o processo de seleção de talentos, afirmando ser arriscado, inadequado e muito subjetivo.
    E não para por ai, Casarin e Greboggy (universidadedofutebol.com.br) do mesmo modo questionam o método seletivo, afirmando que para adentrar no mundo futebolístico, em alguns momentos, os jovens necessitam passar por certas exigências, certos dogmas criados que os afastam da realidade específica do desporto.
    Vemos que muitos atletas ficam pelo meio do caminho, por N motivos, mas com certeza um dos principais é pelo processo falho na captação.
    Não acho que seja tanto culpa desses "profissionais", e sim de quem os coloca para fazerem esse trabalho tão Precioso.
    Por isso cabe a nós que nos interessamos pela temática e estamos preocupados com o futuro do futebol, pesquisarmos e desenvolvermos métodos que sejam mais confiáveis para aplicação.
    Forte abraço
    Ricardo
    www.ricardobelli.com

    ResponderExcluir
  3. Grande matéria Glauber, retrata bem o que muitos teimam em não enxergar, até como salvação para o futebol dito dos times pequenos onde todos os investimentos concentram somente no time profissional com minguado retorno do capital investido. Infelizmente o futebol nacional é muito imediatista, diria até com uma gestão amadora em muitos casos e sem uma visão mais ampla do esporte e de seus meios de sustentabilidade.

    Abraços

    Ricardo F. Gomes
    http://afegol.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  4. Muito bom artigo, concordo plenamente.
    Acredito que um dos pontos-chave e a contratacao d eprofissionais capacitados e com conhecimento teorico-pratico para aplicar treinos adequados e com embasamento para os jovens atletas.
    Parabens.

    Abraco.

    Prof. Fabio Cunha
    www.fcunha.com.br

    ResponderExcluir
  5. Esperamos que um dia as categorias de base tenham a importancia que realmente merece.
    Mas acredito que isto esta mudando, o problema é que esta mudança acontece em passos de tartaruga!
    Parabéns pelo artigo!
    Profº Esp. em Futebol Emanuel C. Bastos

    ResponderExcluir
  6. Bom artigo Prof.,

    Sabemos que hoje ainda não estão preocupados com a formação do atleta na base.

    Mas mais uma vez parabéns pelo artigo.

    ResponderExcluir
  7. Caro Glauber, li seu artigo e achei bastante interessante. A questão é que poucos clubes querem investir na formação global dos atletas que formam. Ignoram que os jovens jogadores precisam receber orientações que extrapolam os treinos técnico-táticos e físicos.

    ResponderExcluir
  8. Muito legal seu texto Glauber pena que nossos clubes so pensam no momento e esquecem do futuro e mesmo assim ainda revelam mas so os melhores estruturados mas PARABENS pelo texto e continua rscrevendo artigo um dia mudamos essa situação valeu abraços do KIM (dudu) da Pos de Viçosa

    ResponderExcluir